Joana - deslizamento

Estudo aponta fatores que contribuíram para deslizamento de rochas em área turística no Brasil

Em 13/08/26 11:11. Atualizada em 13/08/26 11:56.

Texto: Edilene Aguiais

 

Pesquisa destaca influência da chuva, da estrutura geológica e da variação do nível do reservatório na estabilidade de encostas e reforça a importância do monitoramento em áreas de geoturismo

 

Um estudo sobre um deslizamento de rochas ocorrido em um importante ponto turístico brasileiro, que resultou na morte de 10 pessoas, identificou uma combinação de fatores naturais e geomecânicos que contribuíram para a instabilidade da encosta. Os resultados mostram que, além dos períodos de enchimento ou esvaziamento de reservatórios, frequentemente associados a movimentos de massa, a precipitação durante a operação normal pode exercer influência significativa sobre a estabilidade de taludes rochosos.

A pesquisa analisou as condições que antecederam o acidente e indicou que a infiltração da água da chuva nas descontinuidades existentes na massa rochosa, associada à rápida elevação do nível do reservatório, contribuiu para a deflagração do movimento. A avaliação da estabilidade foi realizada a partir da combinação de métodos numéricos, incluindo análises pelo Método dos Elementos Finitos (FEM) e pelo Método dos Elementos Limites (LEM).

Antes do acidente em Captólio
Antes do acidente 
Após o acidente em Captólio
Após o acidente 

 

 

Estrutura geológica favorece instabilidades

Entre os principais fatores identificados pelos pesquisadores está a elevada fragmentação do substrato rochoso. A área analisada apresenta quatro famílias de sistemas de juntas e falhas, algumas delas com orientação e mergulho em direção à face do cânion. Essa configuração pode favorecer a formação de blocos potencialmente instáveis e aumentar a suscetibilidade da encosta a movimentos de massa.

Outro elemento apontado pelo estudo são as cavidades existentes na base das estruturas rochosas, produzidas pela erosão. A retirada progressiva do material na região basal reduz o suporte da massa rochosa e pode contribuir para a perda de estabilidade.

Joana - deslizamento
Foto: Joana Sanchez

Segundo a análise, as diferenças nas características e no comportamento geomecânico das rochas também desempenham papel importante na ocorrência de deslizamentos. Nesse contexto, a utilização de sistemas de classificação da qualidade do maciço rochoso, como o Rock Mass Rating (RMR14), pode auxiliar na identificação de setores com maior potencial de instabilidade.

Pesquisa contribui para o planejamento do geoturismo

Os resultados têm implicações diretas para a gestão de áreas destinadas ao turismo, especialmente aquelas que apresentam cânions, paredões rochosos e outras formações geológicas utilizadas para atividades de visitação.

Para os pesquisadores, a incorporação de informações sobre a qualidade e as características geomecânicas do maciço rochoso aos mapas de suscetibilidade pode permitir uma delimitação mais precisa das áreas que apresentam maior risco. A medida pode subsidiar tanto a restrição temporária ou permanente da visitação em determinados setores quanto a adoção de intervenções estruturais quando necessárias.

O estudo também reforça a necessidade de estratégias específicas de gestão de riscos geológicos em áreas turísticas. Entre as alternativas estão a instalação de estruturas de contenção e a adoção de medidas de eliminação de riscos, como a retirada controlada de blocos rochosos considerados instáveis.

Monitoramento como estratégia de prevenção

Apesar da possibilidade de intervenções físicas, os pesquisadores ressaltam a importância de considerar a preservação das características naturais dos ambientes geológicos. Para áreas nas quais o risco está associado a processos naturais, a implantação de sistemas de monitoramento geológico-geotécnico e de alerta precoce pode representar uma alternativa importante para a prevenção de novos acidentes.

A proposta é acompanhar continuamente as condições da encosta e identificar alterações que possam indicar o desenvolvimento de processos de instabilidade, permitindo a adoção de medidas preventivas e, quando necessário, a retirada de visitantes e trabalhadores da área.

O caso analisado demonstra, assim, que a segurança em locais de interesse turístico deve considerar não apenas as condições de visitação, mas também as características geológicas e geomorfológicas do ambiente. Para os pesquisadores, compreender a interação entre chuva, água subterrânea, erosão, estrutura do maciço rochoso e variações do nível de reservatórios é fundamental para aprimorar a avaliação de riscos e contribuir para um turismo mais seguro e sustentável.

Pesquisa em impressão
O estudo encontra-se em processo de publicação científica.

Produção científica também contribui para a criação de diretrizes para o ecoturismo

A atuação da professora Dra. Joana Sánchez na área também se estende à produção de referências técnicas para a gestão de riscos em áreas turísticas. Em 2025, a pesquisadora participou como primeira autora da Diretriz Normativa ABGE 500/2025 – “Inspeção geológica-geotécnica para o apoio ao ordenamento do ecoturismo”, publicada pela Associação Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental (ABGE).

A diretriz estabelece procedimentos para a realização de inspeções geológico-geotécnicas voltadas à segurança em áreas de ecoturismo, contemplando aspectos como investigação do meio físico, identificação de riscos geológicos, geotécnicos e hidrológicos, análise de acidentes e proposição de medidas de prevenção e correção.

A publicação estabelece uma conexão direta com a linha de pesquisa desenvolvida pela professora e pelo Laboratório de Geologia e Risco em Áreas Turísticas (LaGArTu), da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da UFG. Criado para ampliar a produção de conhecimento sobre os riscos associados ao uso turístico de ambientes naturais, o laboratório tem contribuído para o desenvolvimento de metodologias e estratégias voltadas à segurança dos visitantes e à conservação desses espaços.

A própria Diretriz Normativa destaca que os acidentes ocorridos em áreas turísticas, incluindo o episódio de Capitólio, em 2022, ampliaram a necessidade de referências técnicas para orientar a gestão do ecoturismo no país. O documento propõe uma abordagem que busca conciliar segurança, responsabilidade técnica, conservação ambiental e continuidade das atividades turísticas.

A publicação da diretriz, somada às pesquisas desenvolvidas pelo LaGArTu e à aceitação do artigo para publicação internacional, evidencia a atuação da professora Dra. Joana Sánchez na consolidação de uma área de conhecimento que tem ganhado destaque no Brasil e no cenário internacional: a avaliação e gestão de riscos geológicos em áreas destinadas ao turismo.

Nesse sentido, a produção científica e técnica desenvolvida pela pesquisadora contribui não apenas para a compreensão dos processos responsáveis pela instabilidade de encostas e paredões rochosos, mas também para a construção de ferramentas que podem subsidiar gestores públicos, órgãos ambientais, concessionários e profissionais do setor na tomada de decisões relacionadas à segurança e ao ordenamento do ecoturismo.